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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Espaço de leitura dentro de casa

"Quem escreve um livro cria um castelo,

quem o lê mora nele." 

Monteiro Lobato

Pensando na ação deste mês de duas amigas blogueiras, a Ariane Oliveira e a Andrea Charan, decidi escrever este texto, que a muito venho pensando, porém ainda não havia parado para realizar a escrita.

Começo com esta que é uma das frases, do Monteiro Lobato, que mais me faz pensar sobre o livro na vida dos pequenos. Assim como Monteiro, acredito que o lugar dos livros na vida dos pequenos deve ser principalmente em seu lar, e qual lar seria esse? O lar que abriga nossa alma, nosso corpo, nossa cabeça, nossos pensamentos, e é ali que temos uma morada certeira para que a sensibilização se estabeleça.

Antes de ser mãe pouco pensava sobre a construção literária dentro de casa, como profissional de formação de leitores vivia diariamente a sensibilização literária na escola, espaço em que a criança sempre tem a possibilidade de viver e se relacionar com os livros. Durante o Mestrado, porém, convivendo com minha Orientadora, Adair Neitzel, sobretudo em sua casa, fui percebendo como ela instigava seus filhos para a leitura, naturalmente que tenho na Adair minha principal inspiração para o que realizo hoje em casa.

Livros no quarto dos Passarinhos

Em determinado momento perguntei para a Adair como ela, como mãe, pensava a sensibilização literária para os filhos, consigo me recordar ainda hoje de suas palavras, primeiro me dizendo que o passo número um era perceber que os filhos são diferentes um do outro, que um deles poderia gostar muito de ler e o outro não, ou que ela poderia ter a sorte de ter dois grandes leitores. Em seguida ela me disse que ela acredita que o livro precisa estar em todos os lugares. Convivendo dentro da sua casa, pude ver isso, na prática, a primeira vez que lá estive fiquei encantada com o banheiro, com livros; a sala, com livros; os quartos, com livros; livros na varanda, livros por todos os lugares.

Os livros precisam estar na vida da criança como os brinquedos, como os quebra-cabeças, como parte de sua vida, e mais do que isso, os livros precisam ocupar os lugares.

Foi assim que percebi, ao pensar no espaço de leitura dos passarinhos, que teria livros por todos e em todos os lugares da nossa casa. Incluindo aqueles lugares que aos poucos eles foram nos pedindo, como os banheiros, que por pedido deles começou a ter um porta livros, que costurei e junto deles colocamos, eles selecionaram quais os livros ali estariam e utilizam sempre que estão no banheiro.

Livros no banheiro, conforme pedido dos Passarinhos

Como nossa casa tem dois andares decidi que deveríamos ter livros na parte superior e na parte inferior, foi assim que no quarto eles ganharam um espaço com caixas que pintamos e reaproveitamos, formando uma estante. Já na parte de baixo, aonde temos um espaço integrado, coloquei os livros junto dos seus brinquedos, oportunizando que os livros estejam em suas mãos como os brinquedos e os jogos.

No escritório há a maior concentração de livros desta casa, afinal é ali que ficam os meus livros, tenho eles todos acomodados dentro de um roupeiro, são 8 portas que guardam um enorme número de livros, o que deixa os passarinhos maluquinhos, obviamente que eles tem acesso livre a estes livros. Quando estou por lá, trabalhando, eles adoram tirar tudo, explorar, reorganizar, o que rende bons momentos de brincadeira e claro, tranquilidade para que eu possa finalizar o que estou fazendo.

Livros junto dos brinquedos

No mais, temos livros dentro do carro e sempre aparecem livros no quarto do Pai e da Mãe. Deixo, ao lado da minha cama, o livro que estou lendo, Bernardo costuma fazer o mesmo, disse-me certa vez, após lermos juntos a noite, que eu deveria deixar o livro ali, como tem no quarto da Mãe. Percebo assim, que eles nos observam, percebem que a leitura faz parte do nosso dia a dia, percebem que os livros fazem parte e são parte do seu mundo.

Acredito que cada família descobre na sua dinâmica a melhor forma de apresentar os livros para os pequenos, alguns entendem os livros como extremamente importantes, outros não colocam neste objeto valor de suma importância. Fato é que para a criança compreender com maior facilidade o mundo que a cerca, a literatura pode e deve ser um facilitador, portanto, comprovadamente uma criança com maior acesso aos livros, dentro de casa, tem uma maior probabilidade de se tornar um bom leitor. É parte do trabalho dos pais que este contato seja iniciado, dentro do lar, com o carinho e o amor que se deve as relações familiares.


Aqui tenho feito aquilo que acredito ser o certo, procurando lembrar sempre das palavras da Adair, que é possível que todos os filhos gostem muito de ler, e é possível que nem todos gostem, mas o mais importante é não desistir.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Leitura em família: fortalecendo laços e partilhando alegrias

A leitura é a semente que brota flores de sonhos com frutos de realidade. Ler para as crianças faz de nós, adultos, pessoas mais compreensíveis e sensíveis, nos transforma em ponte na relação imprescindível entre a infância e o mundo “crescido”. Quando praticamos a leitura com nossas crianças, estamos fortalecendo os laços de afeto, ternura e apreço. Além disso, colaboramos com o seu desenvolvimento e vivemos um momento que será para sempre especial na memória de ambas as partes, criança e adulto.

Que as crianças amam os livros infantis e todas as maravilhas que eles nos oferecem, isso nós já sabemos! Mas podemos tornar essa prática ainda mais prazerosa, divertida e produtiva. Como? Com um pouco de criatividade, imaginação e deixando a alegria dos pequenos dar aquela pitadinha de infância que todas as coisas precisam.


A alegria já começa na escolha do livro a ser lido e explorado. Vale ser aquele livro que já foi lido muitas vezes, e que mesmo assim, consegue despertar atenção e empolgação nas crianças, como também pode ser aquele considerado um desafio, por talvez nunca ter sido esmiuçado, ou por ser  aquela historinha que você tenha percebido que deixou um gostinho de “quero mais” nos pequenos leitores. Deixe a criança escolher livremente, caso peça sua ajuda, tente trazer para ela algo novo, será bem interessante.

Escolhido o livro, façam juntos aquela boa leitura, com uma boa entonação de voz que desperte olhares curiosos. Mude a voz criando uma diferente para cada personagem e faça uso das onomatopeias, além de ser divertido, torna a história envolvente e “real”, possibilitando à criança imaginar e ter diversas sensações de sentimentos como medo, alegria, espanto e surpresa.


Terminada a leitura, conversem sobre o que acharam da história, observem de um modo mais detalhado, suas ilustrações e suas cores. Conheçam melhor o autor e o ilustrador. Agora seja você o ouvinte e solicite que a criança faça um reconto da história que por você foi lida. No reconto, a criança vai contar a história “do seu jeito” tentando seguir a sequência que aparece na narrativa original, apoiada ou não nas ilustrações. O reconto proporciona à criança importantes estímulos para a sua aprendizagem. Trabalha a oralidade, a autoconfiança para contar suas histórias, a compreensão do enredo, a ideia de começo, meio e fim, amplia o vocabulário, pois na leitura ouve e aprende palavras que não são ditas diariamente. Podem,  juntos, criar novos desfechos e novas possibilidades, o que favorece a imaginação e a construção de hipóteses. Deixar a criança percorrer livremente as páginas de um livro, dá a ela portas abertas para novas possibilidades de leitura.

Que tal fazer uma dramatização? A diversão vai ficar completa com o uso de lençóis, bonecos(as) de pelúcia, roupas, objetos e tudo que a imaginação permitir para fazer de forma bem descontraída uma “apresentação” do livro lido! Não é preciso “decorar” nada, pois certamente vocês já sabem tudinho que acontece na história, do começo ao fim! A dramatização vai trabalhar a memorização, promover a socialização, a compreensão dos conteúdos, e também vai melhorar a timidez, além de estimular o desenvolvimento da linguagem oral e corporal. Solicite a ela que faça um desenho que melhor represente a história lida. Feito isso, você vai perceber o que teve mais relevância na história para a criança. Você pode fazer uma coletânea destes desenhos. Em breve terá guardados vários registros das leituras de vocês. Que lindeza não é?



As propostas podem ser praticadas em qualquer lugar que favoreça o clima para este momento, na escola ou em casa, o importante é fugir um pouco da rotina, às vezes corrida, do mundo atual e perceber o quanto é válido e proveitoso parar um pouco e entrar em um mundo todo especial. 



quinta-feira, 17 de março de 2016

"De parcerias e trapaças: histórias de ontem, para sempre"

"De parcerias e trapaças: histórias de ontem, para sempre", é destes livros que precisam ser guardados e cuidados, pois devem permanecer em todas as infâncias da nossa vida, livro bom de ser lido pela criança, pelos jovens e pelos adultos.




O texto é da Maria Inez do Espírito Santo e a ilustração quem assina é a Anabella López, quem editou a obra foi a Aletria, que como nossa parceria que é, nos enviou esta obra para que a conhecêssemos, e que sorte a nossa em poder ter acesso a esta obra lindíssima.

Como contadora de histórias que sou, adoro histórias que são contadas, recontadas e contadas mais uma vez, sejam as lendas, as fábulas, os contos, elas perpetuam mantendo a tradição de determinado povo, ou nos fazendo conhecer determinadas épocas das quais sem a ajuda da arte não poderíamos vivenciar.

A obra portanto recolhe histórias que podem ser denominadas fábulas, ou mitos, porém aproximam-se como mitos visto que não carregam uma lição de moral expressa, como ocorrem nas fábulas, porém são histórias aonde temos bichos como personagens e não pessoas. Aqui encontramos histórias que foram recolhidas de tradição oral e portanto não se pode determinar sua autoria original, mas possuem valor significativo, visto que fazem parte da cultura popular.

Maria Inez nos trás 4 histórias, são elas: O veado e a onça, A aranha e o quibungo, O jabuti e a raposa e ainda, O jabuti e a raposa - episódio final. Todas histórias já muito contadas e recontadas por diversos contadores de histórias.


A primeira história, narra a conhecida história do veado e da onça que decidem construir uma casa, o veado a constrói de dia, a onça a constrói de noite, ambos acreditam estar recebendo a ajuda de Tupã visto que todos os dias quando retornam para a construção ela está cada dia mais adianta, quando decidem se mudar descobrem que ambos construíram juntos a mesma casa, decidem morar juntos. Imaginem o que seria o veado e a onça morando juntos, dá ai um bom caldo, mas não vou contar, para saber será preciso comprar o livro.

A segunda história narra a trajetória da aranha para conseguir comida em época de escassez de alimentos, ela engana diversos animais, e amarra um quibungo e se alimenta dele pouco a pouco, assim que consegue se livrar o quibungo decide se vingar, mas não consegue pois a aranha é mesmo muito esperta. A história é de tradição africana mas foi encontrada também, com elementos parecidos, sendo relatada entre os indígenas.


Já as duas últimas histórias narram duas das incontáveis façanhas entre o jabuti e a raposa, o jabuti sempre utilizando de sua esperteza e a raposa sempre tentando prevalecer. Por fim o jabuti consegue se safar nestas numerosas tentativas de ambos de testarem suas competências. Inclui aqui aquela que foi considerada a última disputa entre eles, na qual a raposa infelizmente parece não ter saído com vida.

Todas as histórias foram recolhidas de importantes obras que transcrevem estas tradicionais fábulas e mitos presentes na cultura do nosso país. Maria Inez do Espírito Santo foi muito feliz na escola destas histórias, todas definem de forma primorosa um importante acervo de narrativas.

As ilustrações são simplesmente fantásticas, fogem do contexto tradicional de ilustrações para as crianças, mexendo com o imaginário infantil e agregando valores ao olhar cuidadoso dos pequenos que podem descobrir nas ilustrações um universo mágico e repleto de possibilidades.

Já falei anteriormente, mas gosto de repetir, sou realmente muito interessada por ilustrações que promovem o diferente, uma nova forma de olhar, que esperam da criança movimento e que através das imagens a criança descubra novos significados. Sou realmente adepta de ilustrações diferentes e diferenciadas, é o caso das imagens presentes nesta obra.


Não conhecia ainda o trabalho da Anabella López, que reside no Brasil, mas é Argentina, fiquei muito interessada pelo belo trabalho e busquei mais informações, a ilustradora tem uma site, e vale a pena conhecer os demais trabalhos da artista: www.anabellalopez.com

Esta obra nos foi enviada pela Aletria Editora, aproveito para agradecer, belo presente, arte é sempre um dos melhores presentes que podemos receber. Convido para conhecerem o site da editora que conta com esta e mais muitas belas publicações deles: www.aletria.com.br

Aprecio obras de qualidade, e fico feliz em indicar uma bela obra como esta, um convite a conhecer um pouco da narrativa oral presente no nosso Brasil!


quinta-feira, 3 de março de 2016

Livro Brinquedo X Literatura Infantil

Constantemente sou questionada, sobretudo por minhas alunas de Pós-Graduação, sobre a diferença entre o que é um Livro Brinquedo e o que é a Literatura Infantil.

Decidi abordar o assunto pois ele foi parte da minha pesquisa no Mestrado, entendi no que consiste esta diferenciação, e entendo que é importante, tanto para os profissionais de educação e de leitura e também para a mães interessadas, compreenderem que se tratam de categorias diferentes com papéis diferentes no processo de formação do leitor.

Na esquerda: Literatura Infantil. Na direita: Livro Brinquedo.


 A primeira questão é, como definimos o que é Literatura Infantil?

A Literatura Infantil é um ramo da Literatura que trabalha especificamente com as crianças e adolescentes. Até aqui está tudo certo, todos conseguimos compreender desta forma, porém a literatura infantil vai muito além deste conceito simples, visto que quando tratamos de literatura infantil, e de literatura, estamos tratando de arte, estamos falando também sobre fruição estética, que diz respeito exclusivamente com, relacionar-se e vivenciar arte.

Em Psicologia da Arte, Vigotski enfatiza que para que haja fruição estética deve-se primar pelo conteúdo e não pela forma, o conteúdo da obra deve ser desafiador, a criança precisa se sentir contagiada pelo objeto livro. Para tal é de suma importância que a literatura infantil preze pela qualidade de conteúdo e de imagens.

A literatura infantil, como obra de arte que é, cativa o seu leitor pelo seu conteúdo instigante, desafiador e de qualidade. Quando então a criança tem a possibilidade de ler um livro de qualidade ela o finaliza com presença de sensações, com diversas interpretações e sobretudo, com desejo de conhecimento, de ir além daquele único livro, a literatura infantil é porta, abrindo novas possibilidades para o leitor.

Literatura Infantil: Malvina, Elefante, O filho do Grúfalo e O rabo do Rato.


Neste contexto, o que seria então o Livro Brinquedo, e o que o difere da Literatura Infantil? 

Livro Brinquedo, como o nome já o diz, é um brinquedo que pode assumir a forma de um livro, porém somente forma, nunca conteúdo. Serve como qualquer outro brinquedo, serve para as descobertas do dia a dia do brincar, assim como o fantoche, como o carrinho, como a boneca.

De forma direta, o livro brinquedo tem uma função relacionada ao ensinar, o educar, não o contempla como objeto estético, portanto não é uma obra que procura do leitor questionamentos e sentimentos. Não estou dizendo com isso que o livro brinquedo é menos importante do que uma literatura infantil, longe disso, pois ela assume papel completamente diferente na vida da criança, não tem o papel de sensibilizar para a leitura, tem o papel de fazer divertir, e para o que se pretende ela o faz com qualidade.

Como identificar um livro brinquedo, simples, aquele livro que quando o abrimos ele se transforma em um castelo, ou aquele livro de pintar, o livro quebra-cabeça, o livro que com uma lupa a criança sai a caça dos elementos, o livro que tem ímã para formar rosto ou outros elementos, o livro que é um fantoche, o livro sonoro aonde a criança tem botões para os sons dos animais, e ainda os lindos Quiet Books que são os meus preferidos nesta categoria, entre outros.


Livro Brinquedo: Procure os dinossauros, Criando caretas com ímã e livro sonoro do Bosque.


Em suma, o que o diferencia é que o objetivo do livro brinquedo é o de fazer a criança interagir com determinados elementos, não existe uma narrativa concisa, não existe um enredo, alguns livros brinquedos vem com histórias muito frágeis, aonde não conseguimos identificar começo, meio e fim.

Por outro lado, a literatura infantil é dotada de um enredo, história com começo, meio e fim definidos, ela tem conteúdo a ser explorado e espera da criança uma interação que diz respeito ao envolvimento emocional.

Outra grande diferenciação é no que diz respeito ao processo de interação, quando a literatura infantil desperta no leitor relação, concentração e atenção; já o livro brinquedo, como exige muita interação desperta na criança a ação, a movimentação, necessários para seu uso.

Os dois tem papel importante na formação da criança, porém são sim papéis diferentes, o livro brinquedo ensina muito bem a criança como montar um quebra cabeça, o que é uma maçã, os sons dos animais, ensina diversos elementos que são parte do universo da criança.

Já a literatura infantil é parte significativa no processo de formação do leitor, despertando o leitor para compreender como utilizar e porque ter livro em sua vida, a literatura infantil desperta o imaginário mágico da criança, auxilia ela no processo de compreensão da linguagem oral e escrita, oportuniza a construção de novos conceitos e sobretudo, desperta a criança para este universo único e especial de tornar-se um leitor, carregando para sua vida o desejo da leitura.

É importante salientar que um não invalida o outro, podem e devem ser parte do universo da criança, desde sempre, o livro brinquedo pode auxiliar no processo de introdução da literatura infantil na vida dos muito pequeninos. Cada um tem um importante papel, cabe ao adulto compreender o papel de cada um deles e os utilizar da melhor forma possível.

A criança só tem a ganhar!






quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Nos passo de Cascaes: bruxas, lobisomens e outros seres encantados"

Que grata surpresa tive quando recebi livros da Editora Aletria, primeiro pela qualidade das obras, e ainda entre as obras recebidas, uma literatura escrita por uma catarinense tratando sobre Franklin Cascaes, este grande artista do estado que resido, Santa Catarina.

Obviamente que como artista e irmã de artista visual conheço a história de Franklin Cascaes e tenho imenso prazer em poder neste momento realizar uma indicação de uma literatura infantil que estimula que crianças, não só catarinenses, conheçam o trabalho pelo artista deixado e as lendas existem na Ilha da Magia, Florianópolis.

A obra "Nos passos de Cascaes: bruxas, lobisomens e outros seres encantados" tem texto da Juliana Dalla e Ilustrações do Sergio Magno. Editado pela Aletria.




Na obra, tomamos conhecimento de um Diário de Viagem, viagem essa para a Ilha da Magia, nas notas deste diário descobrimos as aventuras transcorridas nestes 5 dias de visita. Primeiramente conhecemos quem foi Franklin Cascaes, em seguida, dia a dia, nos deparamos com os muitos seres encantados que sempre povoaram as obras do artista.

Florianópolis tem muitas lendas e mitos, e com certeza as lendas que envolvem bruxas e os lobisomens são as mais contadas na região até hoje. Os manezinhos da ilha, como são chamados os moradores, entendem que ali na Ilha muitas bruxas sempre estiveram pelos locais, o que aumenta a curiosidade de quem passa pela ilha.




O artista Franklin Cascaes sempre gostou muito de desenhar as mais diversas bruxas, por ele nomeadas, além de criar seus muitos acessórios. Sou uma grande admiradora das obras do artista e as bruxas são com certeza, para mim, lindíssimas e carregadas desta cultura açoriana presente em Florianópolis.

Porém, a obra da Juliana Dalla não se resume a falar das bruxas, ela trás ainda os demais seres encantados presentes nas obras de Franklin, as sereias, os boitatás, e os lobisomens, todos seres fantásticos criados no imaginário popular e retratados nas obras do artista. Alguns dizem que viram, outros só acreditam vendo, Franklin Cascaes dizia já ter visto e por isso decidiu retratar cada um deles.



E claro, como não poderia deixar de ser, Juliana trás ainda um pouco das benzedeiras, queridas senhoras que com benzimentos ajudam as pessoas, desde um machucado até espantar as bruxas, as benzedeiras tem sempre um benzimento para ajudar no que se precisa. Ela trás na obra alguns benzimentos, o que é riquíssimo, visto que as palavras usadas pelas benzedeiras são sempre divertidas para as crianças, ela trás benzimento para: espantar bruxa, espantar boitatá, amansar animal feroz e até, abrandar trovoadas.

Juliana Dalla consegue trazer em linguagem simples um pouco da história do artista Franklin Cascaes, assim como consegue nos colocar no dia a dia destes manezinhos que vivem em Florianópolis, a obra encanta pelo seu conteúdo, como encanta pelo papel histórico de resgate e manutenção deste bem imaterial importante, que é o imaginário popular a cerca das lendas e mitos.




A obra tem ilustrações do Sergio Magno, que foi muito feliz ao mesclar o seu traço pessoal com os traços do Franklin Cascaes, quando vemos as ilustrações conseguimos perceber o quanto elas se aproximam da linguagem do artista a que se destina a falar no livro.

Fiquei mesmo fã do Sergio, e aproveitei para conhecer mais do trabalho dele no site, fiquei ainda mais encantada. Ele mistura diversas técnicas nesta ilustração, o que deixa as imagens repletas de significados, é destas ilustrações que conversam com o leitor em paralelo, podemos construir outra história através das imagens, o que na minha opinião, torna a obra ainda mais rica.




O imaginário infantil é povoado por esses seres encantados, logo a obra tende a interessar com facilidade. Além da beleza das imagens o livro serve como forma de fazer conhecer o artista Franklin Cascaes e muito da cultura açoriana, presente em Florianópolis. Para quem trabalha com educação esta é uma obra essencial para se ter no acervo, professores de Arte podem explorar em suas aulas, professores de Geografia e de História tem um bocado a apresentar aos alunos, e claro, na exploração infinita de criação e imaginação que obras como esta tendem a aflorar nas crianças.

Antes de finalizar gostaria de observar a qualidade de impressão da obra, qualidade presente nas obras da Editora Aletria, vale a pena conhecer, a editora tem se tornado uma grande parceira do Varal dos Passarinhos, ficamos felizes em divulgar literatura infantil de qualidade. Para ter acesso a esta e mais obras da editora acesse o site da Aletria: www.aletria.com.br.

E para me desfazer desta vou mesmo fazer um bezimento, que é para espantar qualquer bruxa que possa estar aqui nos rondando:

"Com dois te botaram, 
com três eu tiro, 
em nome de Deus, 
da Virgem Maria 
e do Divino Espírito Santo."



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"Estava Escuro e Estranhamente Calmo"

Belíssimos livros precisam sempre ser indicados, afinal existem algumas obras que são mesmo um carinho para nosso olhar, este é o caso da obra de literatura infantil "Estava Escuro e Estranhamente Calmo", escrito e ilustrado por Einar Turkowski, editado no Brasil pela Cosac Naify.



Esta é uma daquelas obras que assim que tomei contato a primeira vez ela me fascinou, vários são os elementos que posso destacar como surpreendestes nesta obra, quero deixar registrado que a obra foi vencedora dos principais prêmios internacionais de literatura infantil e de ilustração, e na minha opinião ela é definitivamente merecedora.


A obra narra a história de um pescador que chegando em uma ilha se instala em uma casa abandonada, transformando-a com diversos objetos estranhos e ferramentas. Os vizinhos não se aproximam e demonstram não se interessar pelo estranho que por ali parou.

Ao passar os dias ele passa a realizar uma estranha pescaria, das nuvens ele consegue pescar objetos e peixes frescos, os habitantes ficam intrigados e percebem a habilidade do homem, porém não se aproximam e sequer adquirem os peixes do estranho pescador.

O homem abandona a ilha, segue seu caminho e os moradores da ilha procuram descobrir a incrível e inusitada forma de pescaria do estranho, sem sucesso.

A escrita da obra é repleta de sutilezas, o que é de uma sensibilidade envolvente e de uma instigadora profundidade de conteúdos e significados. As ilustrações tomam papel importante no contexto, rica em detalhes, o que é incrivelmente inusitado, já que a obra é composta por ilustrações em lápis, brancas, pretas e cinzas.



A mim o universo surrealista é o que mais me fascina, destoando das costumeiras literaturas infantis, esta tende a ser uma obra diferenciada e que trás não somente aspectos artísticos produzidos de forma primorosa como trás conceitos importantes para as crianças, que é a falta de diálogo e o julgamento precipitado sobre o outro.

Certamente é uma obra diferente e que tende a instigar crianças curiosas, visto que a obra é diferenciada crianças habituadas com a arte literária tendem a compreender o seu contexto sem grandes indagações, já para crianças poucos acostumadas com obras diferenciadas existe ainda um belo caminho de descobertas e de sensibilização do olhar.



Aproximar a criança de obras diferenciadas é importantíssimo para que ela compreenda o valor da literatura como obra de arte que ela é, quando acreditamos que as crianças gostam somente de livros coloridos, e mais quando pensamos que a criança se sente atraída somente por livros de interação, estamos subestimando a capacidade da criança de perceber as sutilezas presentes em obras diferenciadas, o preto e branco pode ser tão rico quanto a cor, depende necessariamente da forma como olhamos.

Portanto é essencial compreendermos que a criança pode e deve desde criança conviver com diferenciadas obras e literaturas.



Bom, acredito que já não é preciso muito mais para que eu possa dizer que, sem dúvida alguma, esta literatura figura como uma obra altamente recomendável para a infância.